
Levantei aquele dia, de madrugada, me vesti, calcei meus sapatos e saí de casa. Do portão pra fora senti o vento gelado no meu rosto e tremi, juntamente pelo medo que senti ao me ver no meio da rua escura e sozinha. Enquanto andava, lembro que cheguei a pensar que nem parecia as ruas de sempre, tão movimentadas e iluminadas, se pareciam mais com um cenário, com casas de mentira, árvores artificiais e semáforos que funcionavam em vão, afinal, não havia carros. Só havia eu. Não ouvia barulhos, só a minha respiração ofegante. Andava rápido, quase correndo de tanto medo, para chegar o mais rápido possível ao meu destino seguro. E o que eu estava fazendo andando pelas ruas, sozinha, às 4 da manhã? Qual era o meu ponto de chegada? Eu estava indo te encontrar. O que você tem de tão bom para eu me expor à essa situação? Boa pergunta! Nunca soube responder. Acho que nunca vou saber, desisti de encontrar uma resposta. Desisti também de tentar consertar nós dois sendo que, desde o começo, fizemos tudo errado. Desisti de decorar boas respostas e desabafos para jogar na sua cara quando nos encontrássemos, isso nunca deu certo! Porque toda vez que eu olho dentro dos seus olhos castanhos, esqueço tudo o que eu tinha para falar. Não consigo ser eu mesma perto de você, porque a influência que você tem sobre mim é inexplicável. E eu sei que, de alguma maneira, você também fica sem jeito ao meu lado e sem saber direito o que fazer e dizer. A gente só tem certeza de uma coisa: a gente precisa tá junto. E soa tão ridículo dizer isso. E fica mais ridículo ainda escrevendo. E quando, finalmente, nos encontramos no meio da rua, ficamos paramos, um olhando pra cara do outro. Assim como eu, eu sei que você se perguntou o que estávamos fazendo ali. Por que não procurar outra pessoa pra ficar? Ou por que não esperar o dia clarear pra se ver? Por que não ir ao cinema, como um casal normal ou sair pra comer alguma coisa? Por que tudo tinha que ser tão sem sentido? A gente não sabe, mas nossa vontade de tá junto é maior que qualquer dúvida e ultrapassa a lógica. Não somos um casal normal. Não mesmo. Mas nos completamos desse jeito estranho. Por mais retardado que pareça, eu estava exatamente onde eu queria estar. Ao seu lado. Vai ver o que tanto me encanta seja isso, o modo como você faz com que tudo pareça possível e que nada seja um absurdo. Fizemos amor, é claro. E meu discurso “Você errou, me peça desculpas” ficou pra depois. Porque enquanto eu estou nos seus braços, sentindo sua respiração e seu cheiro, tudo faz sentido. Quando a gente se ama eu consigo compreender o que não compreendo quando estou longe de você. O mundo desaparece e o resto é só o resto, nada mais importante. O que quero dizer é que não importa o dia, a hora, o lugar, se está frio ou calor, se está sol ou chovendo, se estou de chapinha ou descabelada, depilada ou não, sozinha ou acompanhada. Não importa se a rua estiver deserta, ou se eu encontrar obstáculos no meio do percurso. O que quero dizer é que eu andaria por qualquer caminho, deixando dúvidas e erros para trás, se soubesse que ele me levaria até você.

